Artigo

A TEATRALIDADE DE "OS SERTÕES" DE EUCLIDES DA CUNHA

DUARTE, Ismael Higor Cardoso1; KRUGER, Caue2;

Resumo

Introdução:A obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, tem um impacto imenso sobre a imaginação artística e a produção cultural moderna no Brasil. Este marco das ciências sociais brasileiras estimulou e continua estimulando diversas leituras, que vão desde a análise do Brasil como nação até sua formação cultural, social e étnica. A presente pesquisa visa desenvolver uma reflexão sobre a adaptação da referida obra ao teatro, feita pelo Teatro Oficina em formato de tetralogia, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, que não apenas constituiu um marco no teatro brasileiro mas foi também considerada um dos projetos mais arrojados das artes cênicas mundiais.

Objetivo:O objetivo da pesquisa foi refletir sobre a interpretação da obra de Euclides da Cunha pela visão do Oficina. Entendendo a importância do teatro como prática social e percebendo suas relações sociais, culturais e políticas, a pesquisa busca trazer uma análise sociológica e antropológica do teatro.

Metodologia:O método utilizado foi a pesquisa e a análise exploratória de bibliografia relativa ao pensamento social brasileiro de forma articulada com referenciais das artes cênicas, tendo como especificidades a obra Os Sertões e o Teatro Oficina. Ainda foram analisados trechos do roteiro da peça, vídeos disponíveis na internet e em DVD, além de entrevistas de Zé Celso.

Resultados:O Teatro Oficina é a mais expressiva companhia em atividade no país, cuja trajetória é marcada pela permanente inquietação e renovação da linguagem cênica. A adoção de uma linguagem híbrida é herança antropófaga voltada a fortalecer sua “identidade e a posição política e artística da mestiçagem brasileira” (MCQUADE, 2010, p.12). Tendo a crítica e transformação social como objetivo central, o grupo desenvolve um teatro rebelde, baseado na centralidade do corpo, na quebra de tabus e das "verdades hegemônicas". Adota características da performance e do teatro pós-dramático, rompendo com a quarta parede e buscando suscitar experiências artísticas de caráter ritualizado. As manifestações dos ritos xamânicos, da umbanda e do candomblé, a herança cristã, a denúncia sobre o crescimento da violência do capital e a utilização da arte como forma de crítica aos detentores do monopólio do poder capitalista tornam o espetáculo uma experiência sinestésica e intelectual única.

Conclusões:Pelo exposto, podemos considerar a peça Os sertões como possuindo essência política e características performáticas e pós-dramáticas. Como afirma Hans-Thies Lehmann: “O teatro é político na medida em que interrompe e destitui as categorias do político no lugar de colocar novas leis, ainda que elas sejam concebidas com as melhores intenções” (LEHMANN, 2009, p.38). Além de um material altamente crítico, reflexivo e marcante no cenário teatral nacional, a obra promove articulações temporais singulares a medida que estabelece releituras das discussões clássicas sobre a Guerra de Canudos e acontecimentos atuais relativos ao embate entre o próprio Teatro Oficina e o Grupo Silvio Santos, tratados na ótica da crítica ao capitalismo, à espoliação urbana e ao controle midiático e ideológico.

Palavras-chave:Antropologia do Teatro. Sociologia da Arte. Pensamento Social Brasileiro. Teatro Oficina.; Os Sertões.

Legendas

    1. Estudante
    2. Orientador